quinta-feira

Vegetarianos têm maior longevidade do que carnívoros, aponta estudo

A dieta vegetariana reduz o risco de doenças crônicas comparada à alimentação com carne

 A Ciência já provou que o consumo de carne vermelha em excesso está relacionado a um maior risco de doenças cardíacas. Se você faz parte do time que não abre mão do consumo diário de carnes, mais uma pesquisa chega para fazer o alerta à sua saúde. Um estudo publicado dia 3 de junho no JAMA Internal Medicine confirmou a relação entre longevidade e a dieta vegetariana. Algumas evidências já sugeriam que o consumo de carne poderia aumentar o risco de mortalidade, mas a ligação ainda não tinha sido confirmada. 

A pesquisa envolveu a análise de 73.308 homens e mulheres que foram separadas em cinco grupos de acordo com o consumo alimentar: não vegetarianos, semi-vegetarianos, vegetarianos que consomem peixes e frutos do mar, ovo-lacto-vegetarianos (que consomem produtos derivados do leite e ovos) e veganos (que excluem todos os produtos de origem animal). Os participantes do estudo foram acompanhados por seis anos, e durante esse período os especialistas constataram 2.570 mortes entre os voluntários, sendo que os vegetarianos tinham um índice de mortalidade 12% menor do que os carnívoros. 

Os resultados mostraram que a dieta vegetariana, sem gordura animal, está associada ao menor risco de doenças crônicas, como síndrome metabólica, hipertensãodiabetes, doença isquêmica do coração e mortalidade por doenças renais. Nos homens, os resultados foram ainda mais favoráveis. 

O grupo dos vegetarianos era composto por pessoas mais velhas, com maior nível educacional e muitos eram casados. De acordo com os pesquisadores, eles bebiam menos álcool, fumavam menos, se exercitavam mais e eram mais magros do que os carnívoros. 

Um estudo anterior conduzido pelo Cancer Institute, no Reino Unido, mostrou que vegetarianos costumam pesar menos de que quem consome carne e os veganos são ainda mais magros que os vegetarianos. 

Quatro tipos de vegetarianismo 

O vegetarianismo tem ganhado muitos adeptos que buscam através da alimentação evitar o consumo de gordura animal, principalmente da saturada proveniente da carne vermelha, reduzindo assim os riscos de doença do coração, nível de colesterol e triglicérides. Confira a seguir os quatro tipos mais comuns de vegetarianismo:

Dieta semivegetariana

Quem sempre incluiu carnes na dieta pode ter dificuldades para cortar totalmente esse alimento do cardápio. Por isso, muitas pessoas escolhem uma dieta menos restritiva, chamada dieta semivegetariana. "Os indivíduos que seguem essa alimentação limitam a ingestão de carne a, no máximo, três refeições da semana", diz a nutricionista. Com a continuidade no consumo de alimentos de origem animal, mesmo que seja em uma quantidade menor, a maioria das pessoas não precisam de suplementação de vitaminas, proteínas ou minerais. Mas a especialista adverte que, em alguns casos, a suplementação já pode ser aconselhada. "Não podemos pensar de maneira generalizada. Mesmo em uma dieta pouco estritiva como a semivegetariana, alguns indivíduos podem sofrer com a ausência de nutrientes. Por isso, antes de começar uma dieta, é essencial procurar um nutricionista", explica.  
ovos, leite e queijos - Foto: Getty Images

Dieta ovolactovegetariana

As pessoas que aderem a essa dieta excluem da alimentação todos os tipos de carnes de animais, mas continuam ingerindo ovos, leite e seus derivados - iogurte, queijo, requeijão, entre outros. "Por ser uma alimentação mais fácil de seguir no meio social, a dieta ovolacovegetariana tem um grande número de adeptos", diz a nutricionista. O leite e seus derivados são importantes fontes de proteínas, lipídios, cálcio, ferro, potássio, magnésio, zinco e vitamina D. Por isso, quem adere a essa dieta normalmente não necessita de suplementação desses nutrientes. 
alimentos consumidos na dieta vegetariana - Foto: Getty Images

Dieta vegetariana

Comumente associada à palavra vegetal, o nome vegetarianismo na verdade tem origem na palavra latina vegethus, que quer dizer força e vigor. Esse tipo exclui qualquer alimento de origem animal, como ovos, leite e todos os tipos de carne."Essa dieta, se feita da maneira correta, realmente diminui a chances de doenças e traz mais vigor ao corpo", diz a nutricionista.

Um estudo feito por pesquisadores da Cancer Research, no Reino Unido, afirma que a dieta vegetariana ajuda a proteger contra o câncer. Depois de analisar os dados médicos de 52,7 mil pessoas, com idades de 20 a 89 anos, os cientistas concluíram que as pessoas que não ingerem carne têm uma probabilidade significativamente menor de sofrerem com cânceres de diversos tipos do que as pessoas que incluem carne em sua dieta.

Mesmo que o vegetarianismo estrito seja saudável, é preciso tomar cuidado para que alguns nutrientes encontrados na carne não faltem no organismo. Segundo a nutricionista Astrid Pfeiffer, a carne é fonte de todos os tipos de proteínas que o corpo precisa. Nenhum vegetal ou fruta pode substituí-la sozinho. Mas, ao colocar na dieta diferentes tipos de vegetais e frutas, é possível suprir essa ausência. Por isso, é importante não deixar de incluir cereais integrais, leguminosas, legumes, verduras, sementes e castanhas na dieta, já que eles contêm - juntos - todos os aminoácidos essenciais e não essenciais para o corpo. 
mel - Foto: Getty Images

Dieta vegana

Muitas vezes confundidos com os vegetarianos, os veganos também tiram de sua alimentação todos os produtos de origem animal. Mas, além de carne bovina, peixes, aves, ovos e laticínios, eles não consomem mel e gelatina. "Uma pessoa vegana é vegetariana, mas vai além da alimentação, na verdade é um estilo de vida que não utiliza nada de origem animal", explica a nutricionista. Os veganos evitam também produtos de couro, lã, seda e de outros até menos óbvios que também são de origem animal, como óleos e secreções presentes em sabonetes, xampus, cosméticos, detergentes e perfumes. Como é o tipo mais estritivo de vegetarianismo, a dieta vegana precisa de ainda mais atenção a possível falta de nutrientes. 
arroz e feijão - Foto Getty Images

Nutrientes que podem faltar: proteínas

Dois importantes aminoácios encontrados na carne são a metiolina e a lisina. Ao contrário do que muitos acham, a dieta vegetariana também é rica em aminoácidos e contém lisina e metionina. "O que acontece e que costuma causar confusão é que a carne contém os aminoácidos metionina e a lisina.juntos. Já os alimentos de origem vegetal não. Por isso, quem adota a dieta vegetariana precisa combinar alimentos que contenham esses dois aminoácidos ao longo do dia para obter a proteína", explica a nutricionista Astrid Pfeiffer. A metionina, segundo orienta a especialista, é encontrada no grupo dos grãos, como arroz integral, trigo em grão, quinoa, aveia, dentre outros. Já a lisina é encontrada em leguminosas, como o feijão, lentilha, ervilha, soja e grão de bico. 
lentilha - Foto: Getty Images

Nutrientes que podem faltar: ferro

Os vegetarianos podem sofrer um risco maior de deficiência de ferro, já que as principais fontes são a carne vermelha e o fígado . No entanto, eles podem encontrar o mineral nas leguminosas, como feijão, lentilha, ervilha, soja e grão de bico, que podem ferro suprir as necessidades diárias desse de ferro. "Para otimizar a absorção do ferro pelo organismo é recomendado que se ingira também uma fonte de vitamina C, pois ela ajuda na absorção do mineral. Uma boa fonte é a acerola", ensina a nutricionista. 
prato com salada e pílulas de suplemento - Foto Getty Images

Nutrientes que podem faltar: vitamina B12

Essa vitamina, encontrada apenas em alimentos de origem animal, principalmente na carne vermelha, é responsável pela manutenção do funcionamento dos sistemas nervoso e circulatório e da formação de células sanguíneas. "Esse é o único nutriente que os vegetarianos estritos realmente precisam de suplementação, já que não existem fontes que não sejam animais. Já os ovolactovegetarianos podem obter esta vitamina de ovos, leites e derivados", alerta Astrid Pfeiffer. 

domingo

COMO O BOI VIRA BIFE, por Patricia Vieira



1. Monta Natural
É o jeito clássico de fazer filhos: na época de chuvas, a vaca entra no cio e o touro faz o que o touro deve fazer. Cerca de 90% dos bezerros nascem assim.


2. Inseminação artificial
Há ainda a fertilização induzida. Mas como detectar o cio? Para isso, usam-se vacas lésbicas (que recebem hormônio masculino) ou touros que não conseguem fecundar (por causa de cirurgias que entortam o pênis ou “amarram o prepúcio”). Esses animais carregam sacos de tinta e, ao tentar acasalar, mancham a vaca.

3. Fazendo bezerros
Identificado o cio, o veterinário usa uma das mãos para injetar a pipeta com sêmen na vagina da vaca. A outra ele coloca no ânus, para sentir se está injetando no lugar certo. Também é preciso estimular o clitóris para provocar um orgasmo. O líquido liberado no clímax é imprescindível à fecundação.


4. Nascimento
Os bezerrinhos nascem 10 meses depois. Eles serão amamentados e vacinados por 7 meses. Período concluído, as fêmeas voltam a engravidar. E os bezerros começam a engorda.


5. Pasto
Nos próximos dois anos e meio, o boi levará a vida que pediu ao deus bovino. Vai comer, beber, mugir com os amigos e fazer boizinhos. Só tem uma obrigação: engordar normalmente.


6. Confinamento
O abate se aproxima e a engorda é acelerada. Os bois são castrados e, para não perder peso, passam quase 3 meses sem andar. Mas a ração é de primeira: capim, cereais, melaço de cana, vitaminas e sais.


7. Transporte
Para um boi, a morte pesa 450 kg. Ao atingir esse peso, o animal é enviado ao matadouro. A viagem é estressante. O animal urina e sua mais do que o normal e chega a perder até 3% do peso.

8. Banho relax
As primeiras 24 horas no matadouro não são ruins. Para relaxar, recuperar o peso e esvaziar o intestino (o que facilitará a limpeza das tripas), os bois só bebem água e tomam duchas.


9. Exame final
Uma hora antes do abate, os bois são examinados. Quem passar no teste vai para a fila do abate. Os doentes são mortos separadamente. Se a doença for grave, carcaça é incinerada.


10. Corredor da Morte
Normalmente, há curvas para que os animais não saibam o que está acontecendo. E, nas paredes, dispositivos antiempaque dão choques leves ou emitem ruídos. Um banho evita que a sujeira contamine a carne.


11. Tiro certeiro
No boxe de atordoamento, o animal recebe um tiro com pistola de pressão – ou um dardo que perfura o cérebro – e desmaia. A partir daí, para que não corra o risco de acordar, o boi deve ser morto em no máximo 3 minutos.


12. Desmaio
Uma portinhola se abre e o animal cai desacordado numa espécie de esteira. Ele será içado pelas patas para ficar com o pescoço para baixo.


13. Corte certeiro
Primeiro, um corte na pele do pescoço. Depois, é só esticar o braço e chegar à jugular: o boi está oficialmente morto. Durante 3 minutos, seus 20 litros de sangue escorrerão numa canaleta para ser vendidos a fábricas de ração para cães e gatos.


14. Corte e costura
Começa o desmonte do boi. Os chifres são serrados, patas e rabo são cortados, o couro é retirado e o abdômen é aberto para a separação das vísceras. Só então a carcaça é colocada numa câmara de resfriamento para que a carne recupere seu ph normal – o estresse pré-morte libera ácido láctico, que endurece a carne.


15. Bife no prato
Cada brasileiro consome cerca de 26 quilos de carne por ano – 3º maior consumo per capita do mundo, atrás da Argentina e dos EUA.
Vaca sem filho vai para a Bolívia
Quem não engravida vai para o abate. E a carne, considerada mais dura, é vendida a mercados secundários, como Bolívia e Peru.


Boi doente vira vela
Se a doença não for grave, depois do abate a carcaça é enviada para a graxaria, onde será cozida numa panela de pressão gigante. O que sai é um caldo gorduroso, usado para fazer velas, detergentes, explosivos, tintas e pneus.


Utilidades da carcaça
Mucosa do estômago – Coalho e laticínios.
Pêlos do rabo – Pincéis e filtro de ar.
Tripas – Fios cirúrgicos, cordas para raquete e capa de salsicha.
Casco das patas e chifres – Pó para extintor de incêndio e lubrificantes.
Cálculos biliares – Pérolas artificiais.
Couro – Filme fotográfico, cola, gelatina e cápsulas farmacêuticas.

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quarta-feira

Falta de água pode tornar o mundo vegetariano

Dieta vegetariana demanda de cinco a dez vezes menos água que uma dieta rica em proteína animal
Segundo novo estudo, mudança radical de hábitos será necessária para garantir a segurança alimentar da população mundial, que deverá chegar a 9 bilhões em 2050

São Paulo – Diariamente, um bilhão de mulheres, homens e crianças vão dormir com fome, enquanto 10 milhões morrem por desnutrição a cada ano. Se ainda hoje o mundo não conseguiu sanar esse mal, que afeta um em cada sete de seus habitantes, como é que vamos alcançar a segurança alimentar para uma população que em 2050 chegará a 9 bilhões de pessoas?

Um novo estudo mostra que a solução para evitar uma catástrofe alimentar passará por uma mudança quase completa de uma dieta a base de carne para uma mais centrada em vegetais. E isso deverá acontecer por um único motivo: a escassez de água. É o que aponta orelatório “Alimentando um mundo sedento: Desafios e Oportunidades para a segurança hídrica e alimentar”, divulgado ontem na Suécia, por ocasião da Semana Mundial da Água.

A análise mostra que não haverá água suficiente para alcançar a produção esperada em 2050 se seguirmos com a dieta característica dos países ocidentais em que a proteína animal responde por pelo menos 20% das calorias diárias consumidas por um indivíduo.
Na ponta do lápis, de acordo com os cientistas, a adoção de uma dieta vegetariana é atualmente uma opção para aumentar a quantidade de água disponível para produzir mais alimentos e reduzir os riscos de desabastecimento em um mundo que sofre com extremos do clima, como a seca histórica que afeta os Estados Unidos. O motivo é que a dieta vegetariana consome de cinco a dez vezes menos água que a de proteína animal – que hoje demanda um terço das terras aráveis do mundo só para o cultivo de colheitas para alimentar os animais.
“A capacidade de um país de produzir alimentos é limitada pela quantidade de água disponível em suas áreas de cultivo”, ressalta um trecho do relatório, que alerta sobre a pressão atual e crescente sobre esse recurso natural usado de forma cada vez mais insustentável. Segundo previsões da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, da sigla em inglês), será necessário aumentar a produção de alimentos em 70% nos próximos 40 anos para atender à demanda. Isto colocará uma pressão adicional sobre os nossos hídricos, num momento em que precisaremos também alocar mais água para satisfazer a demanda global de energia, que deverá crescer 60% em três décadas, salientam os cientistas.
Estresse hídrico
Um outro estudo divulgado em maio pela consultoria britânica Maplecroft mostrou que o mundo já vive um “estresse hídrico” e que a falta de acesso à água potável vem pesando sobre os países mais pobres ou marcados por histórico de conflitos militares, instabilidades políticas e sociais. Segundo o levantamento, os países do Oriente Médio e África são os mais vulneráveis à falta de água. Nessas regiões, cada gota pode emergir como uma nova fonte de instabilidade.
Em alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo, como Kwait e Arábia Saudita, a escassez de água vem se tornando crítica há gerações. Primeiro colocado na lista de 10 países em “risco extremo” de falta d´água, Bahrein, no Golfo Pérsico, usa águas subterrâneas para a prática da horticultura, porém, em quantidade insuficiente para atender toda a população. A deterioração dos lençóis subterrâneos de água já é uma das principais preocupações nacionais

segunda-feira

Mitos e verdades sobre o processo de se tornar vegetariano



Sérgio Greif, biólogo formado pela UNICAMP,com mestrado em nutrição vegetariana pela mesma universidade, é professor de MBA em Gestão Ambiental da Universidade de São Caetano do Sul e ativista pelos direitos animais. Vegano desde 1998, Greif é co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável”, além de diversos artigos e ensaios. Ele que também é membro fundador da  Sociedade Vegana no Brasil concedeu entrevista exclusiva para jornalista Natália Prieto da ANDA. Greif fala sobre os mitos e verdades que envolvem o processo de se tornar vegetariano. Acompanhe.
ANDA – O primeiro argumento dado pelas pessoas que relutam em parar de comer carne é de que o alimento é essencial para o nosso corpo. Isso é verdade?
Sérgio Greif – Em termos biológicos não somos carnívoros nem herbívoros, mas onívoros. Ser onívoro significa estar biologicamente preparado para lidar com alimentos de diferentes fontes. Estar preparado não significa precisar destes alimentos, ter de comê-los. Não há um único alimento que seja essencial ao ser humano e então nossas escolhas podem ser realizadas considerando aspectos regionais, culturais etc. Há uma cultura de considerar a carne um alimento essencial porque se trata de um alimento rico em proteínas compostas por aminoácidos essenciais completos. Essa cultura considera apenas parte da verdade, porque embora não existam muitos vegetais que tenham perfil de aminoácidos completos, a combinação de diferentes alimentos, como arroz e feijão, ou milho e feijão, ou outras combinações comuns, em uma mesma refeição, tende a balancear o perfil de aminoácidos. Ou seja, aminoácidos que porventura faltam em um alimento tendem a ser supridos por outros alimentos que se encontram ali juntos.  Igualmente, a crença de que vegetarianos estão em maior risco de sofrer deficiência de ferro, cálcio ou outro nutriente não é verdadeira. Esses nutrientes podem ser facilmente encontrados em uma variedade de alimentos de origem vegetal e sua biodisponibilidade garante que vegetarianos não sofrem de carências alimentares mais do que a população não vegetariana. Por essas e por outras não há defesa científica para a argumentação de que a carne é um alimento essencial para o ser humano.
ANDA – O vegetariano restringe apenas o consumo de carne?
Sérgio Greif  –  Não, vegetarianas são as pessoas que se abstêm de todo e qualquer alimento de origem animal. Se a pessoa restringe seu consumo de carne a apenas uma data festiva, por exemplo, Ação de Graças ou Natal, ela não é vegetariana. Se a pessoa não come carne bovina, mas come frango, peixe ou frutos do mar, tampouco ela é vegetariana, pois o termo carne se aplica a todos os tipos de tecidos animais. Vegetarianos também não consomem outros produtos de origem animal como ovos, leites e derivados, gelatina, mel etc. Por muito tempo considerou-se que “alguns tipos de vegetarianos” podiam consumir alguns tipos de produtos de origem animal, como peixes, leite, ovos, mel, etc., mas certamente isso insidia em um emprego errôneo do termo e este erro tem sido reconhecido e corrigido em alguns lugares. O termo vegano (ou vegan, em inglês) diz respeito a outros aspectos do estilo de vida do indivíduo que não apenas seus hábitos alimentares. Assim, veganos, além de vegetarianos, não usam couro, peles, lã, não vão a rodeios, circos com animais, não montam cavalos e procuram não utilizar produtos testados em animais.
ANDA – Há um processo recomendado para parar de comer carne? É necessário fazer acompanhamento médico?
Sérgio Greif – Em verdade não há um processo padronizado que determina a melhor forma de proceder em relação ao abandono de carne e outros produtos de origem animal. O processo varia conforme a pessoa e seu nível de dependência emocional em relação ao alimento em questão. De forma geral a tendência é que as pessoas primeiramente abandonem a carne vermelha, depois a carne de aves e por fim os peixes, depois abandonem o consumo de ovos e por ultimo o leite. Mas, novamente, isso dependerá de cada pessoa. Há pessoas que sequer comem peixe, então é claro que esse é um item que elas não precisarão abandonar. A maior dificuldade em abandonar os ovos e o leite reside no fato de que esses itens entram na composição de várias preparações. Daí que seu abandono exige que a pessoa consiga se abster de muitas outras coisas que não necessariamente parecem, em um primeiro momento, envolver a exploração animal. O acompanhamento médico não é de forma alguma necessário, visto que o que a pessoa está abandonando não é algo essencial a sua existência. Mas a pessoa pode sim buscar o auxílio profissional se julgar que a transição está sendo dificultosa ou não se sentir segura em relação aos passos. Até mesmo uma pessoa que decide abandonar o tabaco às vezes tem a necessidade de acompanhamento médico, e passa por momentos de fraqueza.
Vegetarianos não necessitam entender de nutrição, nem tampouco saber que alimentos são ricos em quais nutrientes, basta que adotem uma fórmula simples e que sempre funciona muito bem. Essa fórmula diz, em primeiro lugar, que não devemos confundir vegetarianismo com anorexia. Vegetarianos comem bem, aliás, muito bem. Mais de duas mil calorias de vegetais são pratos bem generosos, então a primeira coisa é que vegetarianos não devem diminuir seu consumo de calorias. Encham o prato. O segundo fator da fórmula diz que é sempre melhor consumir alimentos menos processados do que mais processados. Um vegetariano pode consumir mais de duas mil calorias de um alimento processado e refinado, mas ele estará consumindo o que chamamos de calorias vazias. Não é uma forma saudável de preencher essas calorias. Vegetarianos, assim como todos os seres humanos, devem sempre preencher suas calorias com alimentos nutritivos. O terceiro fator da fórmula reside na variedade. Jamais se deve apoiar todas as suas refeições em um único tipo de alimento. Ok eventualmente comer uma macarronada no almoço, mas no jantar deverá se buscar consumir outros alimentos. A monotonia das refeições é ruim porque sempre fornece ao corpo os mesmos tipos de nutrientes. Já a variedade cuida de que nenhum nutriente falte, porque o que não está em uma refeição estará em outra refeição. A pessoa não precisa saber que grãos, leguminosas e folhas de cor verde escura são ricos em proteínas, cálcio e ferro, nem que cereais e derivados são ricos em carboidratos, nem que castanhas e sementes são ricas em lipídeos, o que ela precisa saber é que deve consumir uma variedade de alimentos, várias porções de cereais, leguminosas, tubérculos, folhas, frutas e uma porção menor de nozes e sementes (um truque fácil é tentar montar pratos coloridos, pois a coloração natural dos alimentos e indicativa da presença de determinados nutrientes). Se a pessoa fizer isso com certeza não precisará de acompanhamento médico.
ANDA – Crianças e bebês também podem virar vegetarianos?
Sérgio Greif – Crianças podem ser vegetarianas desde nascença, desde que a fórmula acima seja considerada. Obviamente que nesse caso recomenda-se que um profissional de saúde que respeite a opção pelo vegetarianismo acompanhe seu desenvolvimento (mas a mesma recomendação se aplica a crianças que se alimentam de produtos de origem animal). O vegetarianismo facilmente supre as necessidades nutricionais do ser humano em todas as etapas de seu ciclo de vida.
ANDA – É verdade que as pessoas que se tornam vegetarianas ficam menos estressadas?
Sérgio Greif – Na verdade essa afirmação carece de qualquer comprovação científica. Esse conceito deriva de apologias realizadas por defensores da alimentação natural na década de 1980, que afirmavam que os hormônios, ou as
substâncias, liberadas por animais no momento do abate passavam de alguma forma para seus tecidos e daí para quem os consumisse. Considerando que a maioria das carnes são processadas antes de consumidas, é improvável que tais substâncias realmente estejam preservadas quando de seu consumo. O que de fato temos é que em muitos casos a pessoa que opta pelo vegetarianismo já está também engajada em outras atividades que reconhecidamente tem efeito sobre o controle de seu estresse. Por muito tempo o vegetarianismo esteve ligado, e algumas pessoas ainda o associam a isso, ao yoga, às religiões orientais, às práticas meditativas etc. Daí reconhecer que pessoas que praticam o vegetarianismo são menos estressadas. Mas quando o vegetarianismo se manifesta desacompanhado de tais práticas aparentemente o que temos são pessoas tão estressadas quanto à população geral.
ANDA -As drágeas  comercializadas não contêm a mesma quantidade de vitaminas encontrada na carne. O que isso significa?
Sérgio Greif – Suplementos multivitamínicos e multiminerais são formulações destinadas a suprir parcial ou completamente as necessidades da população por vitaminas e minerais. Dessa maneira, nutrientes cujo consumo é baixo pela população em geral, como vitamina A, vitaminas do complexo B, vitamina C, vitamina D, Vitamina E, Vitamina K, ácido fólico, ferro, cálcio, selênio e zinco podem ser colocados em uma mesma cápsula com a finalidade de que as pessoas tenham um aporte desses nutrientes que em alguns casos pode chegar a 100% de suas necessidades diárias. Já a carne não é um alimento de forma alguma completo nesse quesito, sendo mesmo deficiente em muitas vitaminas e minerais. Pessoas que seguirem a fórmula passada na questão acima não terão necessidade de recorrer a suplementos, simplesmente porque a variedade tende a suprir todas as necessidades por vitaminas e minerais.
ANDA – Quais os benefícios de cortar a carne da alimentação?
Sérgio Greif – Em primeiro lugar se beneficiam os animais, já que uma pessoa a menos estará se responsabilizando por seu ciclo vicioso de criação e abate. Em segundo lugar se beneficia o planeta inteiro, já que menos uma pessoa estará consumindo uma quantidade de recursos que basicamente torna a vida insustentável. Em terceiro lugar se beneficia o próprio indivíduo, que então passa a adotar um estilo de vida mais compatível com sua ética pessoal, além de a médio e longo prazo ter benefícios para sua saúde. Diversos estudos demonstram que o consumo de carne e outros produtos de origem animal está associado à maior incidência de doenças tais como cardiopatias e doenças coronárias, hipertensão, cânceres diversos, diabetes, obesidade, derrames, osteoporose, diverticulose, doenças renais, doenças hepáticas, alergias. De maneira geral, o vegetarianismo está associado ao melhor estado de saúde e maior longevidade.

"Não é mais possível dizer que não sabíamos", diz Philip Low

Foto: Berenice, que me inspirou a fazer este blog 

 Neurocientista explica por que pesquisadores se uniram para assinar manifesto que admite a existência da consciência em todos os mamíferos, aves e outras criaturas, como o polvo, e como essa descoberta pode impactar a sociedade


Marco Túlio Pires


O neurocientista canadense Philip Low ganhou destaque no noticiário científico depois deapresentar um projeto em parceria com o físico Stephen Hawking, de 70 anos. Low quer ajudar Hawking, que está completamente paralisado há 40 anos por causa de uma doença degenerativa, a se comunicar com a mente. Os resultados da pesquisa foram revelados no último sábado (7) em uma conferência em Cambridge. Contudo, o principal objetivo do encontro era outro. Nele, neurocientistas de todo o mundo assinaram um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência. Stephen Hawking estava presente no jantar de assinatura do manifesto como convidado de honra.


Leia mais: Entenda o manifesto que afirma a existência da consciência em todos os mamíferos, aves e até polvos
Divulgação
Philip Low
Philip Low: "Todos os mamíferos e pássaros têm consciência"
Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), ambos nos Estados Unidos. Ele e mais 25 pesquisadores entendem que as estruturas cerebrais que produzem a consciência em humanos também existem nos animais. "As áreas do cérebro que nos distinguem de outros animais não são as que produzem a consciência", diz Low, que concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:
Estudos sobre o comportamento animal já afirmam que vários animais possuem certo grau de consciência. O que a neurociência diz a respeito?Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela manifestação da consciência. Resumidamente, se o restante do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como mamíferos e pássaros, concluímos que esses animais também possuem consciência.
Quais animais têm consciência? Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos.

É possível medir a similaridade entre a consciência de mamíferos e pássaros e a dos seres humanos? Isso foi deixado em aberto pelo manifesto. Não temos uma métrica, dada a natureza da nossa abordagem. Sabemos que há tipos diferentes de consciência. Podemos dizer, contudo, que a habilidade de sentir dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante.

Que tipo de comportamento animal dá suporte à ideia de que eles têm consciência?Quando um cachorro está com medo, sentindo dor, ou feliz em ver seu dono, são ativadas em seu cérebro estruturas semelhantes às que são ativadas em humanos quando demonstramos medo, dor e prazer. Um comportamento muito importante é o autorreconhecimento no espelho. Dentre os animais que conseguem fazer isso, além dos seres humanos, estão os golfinhos, chimpanzés, bonobos, cães e uma espécie de pássaro chamada pica-pica.

Quais benefícios poderiam surgir a partir do entendimento da consciência em animais? Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência, estamos muito mais próximos de produzir uma consciência sintética do que pensávamos. É muito mais fácil produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que 100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá ser mais fácil agora.

Qual é a ambição do manifesto? Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre o direito dos animais? É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é reportar os dados.

As conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o seu comportamento? Acho que vou virar vegetariano. É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil, adoro queijo.

O que pode mudar com o impacto dessa descoberta? Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo, penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles.

Fonte: VEJA

sábado

Estudo comprova que peixes são animais sencientes


Bem-estar animal: um conceito legítimo para peixes?

“Animal Welfare: a legitimate concept for fish?”

Leonor Galhardo; Rui Oliveira
Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa, Portugal



ABSTRACT

Numerous species of fish constitute a valuable resource to humans. The welfare of fish in captivity has been a matter of growing concern and despite little is known about their welfare, fish is protected in most European legislation. The concept of animal welfare has been applied to fish, with some controversy related to their suffering capability. The ability to form declarative mental representations is a pre-requisite for sentience, and has been described for fish in the context of studies on social interactions, spatial memory and learning. Similarly to the physiology of stress, recent studies on pain perception and fear in fish have shown that they share important neuroanatomical, physiological and behavioural features with the tetrapods. The psychological effect of stress in fish was also already addressed. The cognitive complexity of fish has relevant implications to their moral status and husbandry recommendations.
Keywords: Fish welfare, Suffering, Memory, Learning, Mental representations.

RESUMO

Os peixes constituem um valioso recurso para os humanos. O seu bem-estar tem sido alvo de consideração crescente, fazendo parte da legislação Europeia de protecção, apesar das lacunas de informação existentes. O conceito de bem-estar animal tem vindo a ser aplicado a peixes, com alguma controvérsia ligada à sua capacidade de sofrimento. A formação de representações mentais declarativas é um pré-requisito para a existência de senciência e tem vindo a ser descrita em peixes em contextos de interacção social, memória espacial e aprendizagem. Tal como na fisiologia do stress, estudos recentes acerca da percepção de dor e medo em peixes têm mostrado que eles possuem características neuroanatómicas, fisiológicas e comportamentais semelhantes à dos tetrápodes. O efeito psicológico do stress em peixes tem também sido alvo de estudos recentes. A complexidade cognitiva dos peixes tem implicações relevantes para o seu estatuto moral e recomendações relacionadas com a manutenção em cativeiro.
Palavras chave: Bem-estar, Ssofrimento, Memória, Aprendizagem, Representações mentais.



Introdução
Os peixes são amplamente usados como recurso em várias áreas importantes da actividade humana, como sejam na pesca e aquacultura, na investigação científica, como animais de companhia e em aquários públicos. Embora a legislação reguladora destas actividades tenda a abranger todos os vertebrados, o conhecimento acerca do bem-estar animal no grupo dos peixes é ainda muito reduzido (Braithwaite & Huntingford, 2004).

Nas últimas décadas os estudos de bem-estar centraram-se em mamíferos e aves nos mais variados contextos artificiais. A percepção do estado em que os animais se encontram e a compreensão do que necessitam tem aumentado substancialmente. Este conhecimento tem vindo a modelar normas de boas práticas, linhas de orientação e legislação acerca de como devem ser tratados em cativeiro. Relativamente aos peixes, apesar de existir um corpo abundante de estudos relacionados com a sua saúde e mecanismos de stresse (Barton, 1997), só recentemente se começam a integrar estes e outros aspectos no contexto do bem-estar animal. Contudo a aplicação deste termo aos peixes, com as implicações no domínio mental que acarreta, tem gerado alguma controvérsia (Rose, 2002; Sneddon, 2003). O presente texto tem como objectivo evidenciar como o bem-estar animal é um conceito legitimamente extensível aos peixes, e de como deve ser tido em conta em actividades tão expressivas como a aquacultura.

Ética e bem-estar animal

O bem-estar animal refere-se à qualidade de vida dos animais (Appleby, 1999). Como área científica deve a sua origem às preocupações do público a respeito de como os animais são tratados em cativeiro. Embora com génese em preocupações de carácter moral, o bem-estar animal limita-se a procurar caracterizar objectivamente o estado em que se encontram os animais, e a desenvolver estratégias para incrementar o seu bem-estar quando sob a responsabilidade de humanos. A análise do que é ou não admissível fazer-se com os animais e do grau de sofrimento considerado aceitável transcende os objectivos desta ciência, caindo antes no domínio da ética. Neste domínio, a senciência tem sido um critério fundamental, embora não o único, para atribuição de estatuto moral aos animais. De acordo com a abordagem utilitarista de Singer (1991), sendo as consequências dos actos que determinam a sua legitimidade, deve existir igualdade de consideração de interesses iguais dos seres sencientes, independentemente da espécie.

Regan (1984) alarga a ética deontológica aos animais, atribuindo estatuto moral a todos os que para além de sencientes, possuem determinadas características cognitivas, como sejam intencionalidade, alguma forma de auto-consciência, crenças, desejos e sentido de futuro (“sujeitos-de-uma-vida”). A esses deverão ser reconhecidos direitos e, em consequência disso, o seu uso como recurso, seja qual for o fim, não é considerado ético. Como notam Sandøe, Crisp, e Holtug, 1997, são possíveis outras abordagens éticas baseadas na senciência, as quais combinam elementos do utilitarismo de Singer e dos direitos dos animais de Regan.

As definições propostas de bem-estar animal assentam em três vertentes fundamentais: o funcionamento orgânico, as experiências mentais e a “natureza” dos animais (Fraser, Weary, Pajor & Milligan, 1997). Embora possa ser atribuída uma importância diferente a estas abordagens, o conceito de bem-estar animal tem evoluído operacionalmente de forma a integrá-las e a analisá-las, sempre que possível, interdependentemente (Mason & Mendl, 1993; Mendl, 2001).
O funcionamento orgânico e a saúde são um dos aspectos fundamentais do bem-estar animal. Doenças, ferimentos, malformações e má nutrição são as principais ameaças ao equilíbrio orgânico dos animais. Em geral, os sinais positivos de saúde provêm de um bom aspecto físico, alimentação regular, taxas de crescimento e reprodução normais, boa longevidade e taxas de mortalidade reduzidas (Duncan & Fraser, 1997).

Contudo, o que o termo ‘bem-estar’ tem de especial em relação à saúde animal é a incorporação da dimensão mental dos animais. A sua capacidade consciente de sentir e certas características cognitivas relacionadas, constituem elementos-chave deste aspecto (Broom, 1998; Appleby 1999). Assim, o bem-estar animal respeita não só à qualidade de vida dos animais, mas também e sobretudo à percepção que estes têm dela. Estados mentais negativos ou sofrimento (dor, medo, tédio, etc.) induzem mal-estar, enquanto que estados mentais positivos (alegria, conforto, prazer) propiciam o bem-estar no seu sentido positivo. Apesar das dificuldades de que se reveste o estudo dos estados mentais dos animais, existe actualmente um conjunto de evidências indirectas relacionadas com a anatomia, fisiologia, etologia e cognição que permitem a compreensão destes fenómenos em várias espécies (Broom, 1998; Appleby, 1999; Mendl & Paul, 2004).

O terceiro aspecto considerado no âmbito do bem-estar animal é a questão da “natureza” dos animais (Appleby, 1999), a qual determina a necessidade de os animais poderem expressar o seu reportório natural de comportamento. Contudo, tal como alguns autores põem em evidência (Fraser et al., 1997; Dawkins, 2004), certos comportamentos naturais podem já não ser relevantes para os animais quando mantidos em condições artificiais, ou podem mesmo ser indicadores de mal-estar (e.g. fuga a predadores). Por isso, mais do que a questão da “natureza” dos animais, o importante será a compreensão da forma como o comportamento está relacionado com a saúde e com o que o animal deseja ou não em cada momento (Dawkins, 2004).
O conceito de bem-estar animal tem vindo a ser aplicado aos peixes, nomeadamente em inúmeros estudos relacionados com aquacultura. Apesar de não abordarem directamente a questão do sofrimento, várias publicações acerca dos mecanismos de stresse e desenvolvimento de patologias assumem-no como uma possibilidade, com base em critérios comportamentais e fisiológicos (e.g. Ellis, North, Scott, Bromage, Porter & Gadd, 2002; Lambooij, van de Vis, Kloosterboer & Pieterse, 2002). Contudo, como já mencionado, a alegada capacidade dos peixes de sentir conscientemente experiências mentais desagradáveis não é uma questão cientificamente consensual, constituindo actualmente o âmago das atenções de vários investigadores em bem-estar animal (Sneddon, Braithwaite & Gentle, 2003). Finalmente, tal como para outros animais, a averiguação das preferências dos peixes ou do seu grau de motivação para levar a cabo comportamentos ou ter acesso a recursos (Dawkins, 1990, 2004; Fisheries Society of British Isles, 2002), pode completar o cenário do que efectivamente contribui para o seu bem-estar em cativeiro.

Stresse e bem-estar em peixes

O stresse pode ser considerado como um conjunto de respostas não específicas do organismo a situações que ameaçam desequilibrar a sua homeostase (Barton, 2002; Fisheries Society of British Isles, 2002). Os agentes de stresse ou stressores em peixes podem ser de inúmeros tipos, entre os quais se contam os de natureza física, como o transporte, o confinamento ou manuseamento; os de natureza química, como os contaminantes, o baixo teor de oxigénio ou o pH reduzido; e os percepcionados pelos animais, como a presença de predadores ou de conspecíficos estranhos (Barton, 1997). Os stressores podem ser de curta ou de longa duração, e podem possuir diferentes intensidades. A exposição moderada a estes agentes pode produzir nos peixes uma resposta adaptativa, que restitui o equilíbrio ao organismo. Contudo, se estes estiverem sujeitos a agentes de stresse intensos ou prolongados, a resposta pode tornar-se maladaptativa, com consequências negativas para o seu estado de saúde. Conte (2004) reconhece que o stresse é um dos principais factores responsáveis pela ocorrência de doenças e mortalidade em aquacultura.

A resposta fisiológica a agentes de stresse em peixes é similar à verificada em outros vertebrados e tem sido descrita a três níveis (Barton, 1997; Fisheries Society of British Isles, 2002; Rose, 2002). A resposta primária, ou reacção de alarme, inclui as mudanças neuroendócrinas imediatas à exposição ao agente de stress, ou seja refere-se à libertação de catecolaminas das células cromafinas (homólogas da medula supra-renal dos mamíferos) e de cortisol das células inter-renais (homólogas do córtex supra-renal dos mamíferos). A resposta secundária é uma fase de resistência e tentativa de adaptação e resulta dos níveis de catecolaminas e cortisol em circulação. Inclui uma série de alterações, entre as quais se contam a alteração das taxas de circulação de outras hormonas (da pituitária e tiróide), a alteração das taxas de reconversão de neurotransmissores cerebrais, o aumento da taxa cardio-respiratória e a mobilização de energia (a partir de reservas de hidratos de carbono, lípidos e proteínas). A resposta terciária ocorre numa fase de exaustão do organismo, quando a exposição a agentes de stresse se torna crónica e inclui alterações da função imune e da resistência à doença, assim como mudanças na taxa de crescimento e reprodução. Este nível de resposta já excedeu a capacidade de adaptação do organismo, sendo por isso considerada maladaptativa, e muitas vezes conduzindo à morte (Barton, 1997).

A resposta comportamental a agentes de stresse em peixes é também similar à encontrada em outros grupos de vertebrados: depende do tipo de agente de stresse a que estão submetidos e pode constituir um potente indicador da ocorrência de respostas fisiológicas (Fisheries Society of British Isles, 2002). As alterações comportamentais verificadas constituem mecanismos adaptativos que visam, em geral, reduzir ou eliminar a exposição a agentes de stresse. Quando possível, o comportamento mais imediato é a fuga ou imobilização. Se o contexto ambiental não permite a fuga, verificam-se alterações significativas do comportamento, tais como mudanças no ritmo e padrão natatório, redução ou alteração do comportamento anti-predatório, disrupção do comportamento alimentar, aumento da procura de abrigo (por vezes, de forma inapropriada), redução de comportamentos agonísticos ou territoriais, ou pelo contrário, aumento de agressividade, e alterações da capacidade de aprendizagem (Schreck, Olla & Davis, 1997).
A intensidade e duração da resposta a estímulos adversos depende das espécies, estirpes, ou stocks considerados, bem como do facto de se tratar de animais nascidos em meio natural ou em cativeiro. Também as condições ambientais, de desenvolvimento ou genéticas podem gerar uma maior ou menor susceptibilidade a agentes de stresse, influenciando o tipo de respostas geradas (Barton, 2002). Barton (1997) chama a atenção para a necessidade de ter estes aspectos em consideração quando se interpretam os resultados de análises ao cortisol. O mesmo autor (2002) refere a relevância da investigação de taxas metabólicas, imunocompetência e reprodução na compreensão dos contextos em que o stresse ocorre.

Os efeitos da exposição a agentes de stresse não se limitam a ter um impacto fisiológico e comportamental. Weiner (1992) usa o termo “experiência stressante”, em vez de stresse, para indicar que a organização da resposta não é apenas função da percepção do agente de stresse, mas também de experiências passadas. Inevitavelmente, existe uma dimensão psicológica do stresse reconhecida por vários autores (Fisheries Society of British Isles, 2002; Chandroo, Duncan & Moccia, 2004).

Evidência de senciência em peixes

Como já foi mencionado, o âmago do conceito de bem-estar animal está relacionado com a capacidade ou não de o animal ter consciência de sensações e sentimentos (senciência). Nesta perspectiva, torna-se fulcral averiguar da existência desta característica em peixes para avaliar até que ponto é pertinente a aplicação a estes do conceito de bem-estar.

Consciência e cognição

Apesar de o termo consciência ser geralmente reconhecido como demasiado vago para poder ser definido, Griffin (1992) conceptualiza-o como sendo “o que o animal percepciona num dado momento a respeito da sua situação imediata”. Este conceito pode, segundo este autor, incluir memórias de percepções passadas, ou antecipação de eventos futuros. Contudo, este e outros autores (Dawkins, 2001; Mendl & Paul, 2004) fazem uma distinção clara entre consciência e complexidade cognitiva. Dawkins (2001) chega mesmo a alertar para os perigos de interpretar simultaneamente os conceitos de consciência, cognição e bem-estar animal, um dos quais será o erro de assumir que só organismos complexos possuem consciência, e que implicitamente estes podem ter mais problemas de bem-estar. Mendl e Paul (2004) reconhecem, no entanto, a importância do estudo das capacidades cognitivas dos animais para melhor enquadrar o contexto em que o sofrimento pode ocorrer ou pode ser evitado. Por exemplo, a capacidade de planear um evento futuro ou de antecipar uma determinada ocorrência são processos cognitivos que podem ter consequências muito relevantes na gestão de situações potencialmente promotoras de sofrimento. Para outros autores (Duncan & Petherick, 1991; Braithwaite & Huntingford, 2004; Chandroo et al., 2004; Yue, Moccia & Duncan, 2004), contudo, estas e outras capacidades cognitivas não só informam a respeito do contexto em que o sofrimento pode ocorrer, como sobretudo constituem elementos cognitivos indissociáveis do estudo da consciência e senciência.

O mais simples de todos os processos cognitivos relevantes para a senciência é a capacidade de sentir os estímulos internos e de percepcionar os externos (Duncan & Petherick, 1991). Esta capacidade está dependente da formação de representações mentais declarativas que, em humanos, envolvem a consciência. As representações declarativas implicam a atenção selectiva a estímulos, a capacidade de antecipar e possuir expectativas e o direccionamento flexível e integrado das respostas comportamentais (Chandroo et al., 2004). Em contraste, as representações processuais (ou implícitas) não são conscientes e traduzem respostas reflexivas, estando presentes em formas simples de condicionamento e habituação (Hampton & Schwartz, 2004).

A investigação da memória envolvendo representações declarativas tem sido levada a cabo em animais de várias espécies, fornecendo importantes dados a respeito da ocorrência de fenómenos mentais conscientes. Um dos exemplos destes estudos é a investigação de memória episódica (evocação consciente de experiências passadas específicas) em gaios (Aphelocoma coerulescens). Clayton, Bussey, e Dickinson (2003) concluíram que estas aves, armazenadoras de alimentos no meio natural, formam memórias integradas, flexíveis e dependentes de um único evento sobre onde, quando e que tipo de alimento escondem. Além disso aperceberam-se igualmente que animais com experiência de roubar comida armazenada, são capazes de atribuir esta característica a outros, ajustando o seu comportamento de armazenamento em função dessa antecipação. Outros estudos recentes incluem a averiguação de metacognição (o próprio ‘saber o que sabe’) em primatas, com resultados que evidenciam o uso de processos mentais conscientes (Mendl & Paul, 2004).

Apesar de não ser abundante, a investigação efectuada em diversas espécies de peixes revelou comportamentos indiciadores de representações mentais declarativas e de uma memória e capacidade de aprendizagem complexas e flexíveis (Braithwaite & Huntingford, 2004). A tabela 1 ilustra alguns exemplos que podem evidenciar a ocorrência destas representações em contextos relacionados com interacção social, memória espacial e processos de aprendizagem em peixes. Os mecanismos neuronais de algumas destas características cognitivas sugerem um certo grau de especialização e similaridade funcionais com os vertebrados terrestres, uma vez que a destruição do telencéfalo dos peixes resulta em perturbações da orientação espacial, em particular da formação de mapas cognitivos, e de certas formas de aprendizagem, de forma similar à ocorrida noutros vertebrados em consequência de lesões do hipocampo (Salas, Broglio, Rodriguez, López, Portavella & Torres, 1996).

Tabela 1. Exemplos de estudos que indiciam a formação de representações mentais do tipo declarativo em peixes

Emoções, cognição e motivação

Os estados emocionais envolvem alterações neuro-hormonais e comportamentais, com actividade electroquímica em regiões bem definidas do cérebro (Broom, 1998). Existem inúmeras abordagens ao estudo das emoções, sendo que os aspectos ligados à cognição e à motivação são dificilmente separáveis do universo emocional quer em termos comportamentais, quer em termos das estruturas cerebrais responsáveis (Lazarus, 1991; Damásio, 1994; Chandroo et al., 2004). Com efeito, o sistema límbico dos vertebrados terrestres possui funções relacionadas com o comportamento emocional, com a memória e com a aprendizagem, certos sistemas neuronais dopaminérgicos específicos estão envolvidos nos processos emocionais e motivacionais. Chandroo et al. (2004) revê um conjunto de evidências que sugerem a existência de estruturas e sistemas neuronais homólogos em peixes.

Portavella, Vargas, Torres, e Salas (2002) e Portavella, Torres, Salas, e Papini (2004) demonstram a existência de homologias entre estruturas cerebrais responsáveis pela actividade emocional e processamento de informação sensorial, aprendizagem e memória, nomeadamente entre o pallium médio telencefálico de teleósteos e a amígdala de tetrápodes, bem como entre o pallium lateral e o hipocampo, respectivamente. Mattioli, Santagelo, Costa, e Vasconcelos (1997) sugerem que a substância P (neuropeptídeo implicado em algumas formas de plasticidade neuronal) estimula a memória e a aprendizagem de peixes-vermelhos (Carassius auratus) no contexto de tarefas envolvendo motivação específica (fome).

As teorias hedonísticas de motivação atribuem a expressão “estados motivacionais afectivos” para exprimir as adaptações que motivam certos tipos de comportamento, sobretudo sempre que uma resposta aprendida e flexível tem mais valor adaptativo do que uma resposta rígida ou reflexiva (Fraser & Duncan, 1998). Também Dawkins (1998) se refere à emergência da consciência e de estados emocionais como uma competência extra para lidar com contextos mais complexos ou envolvendo uma escala de tempo alargada.

 Este facto implica que as características ecológicas em que as espécies evoluíram podem determinar selectivamente o recurso a estas capacidades mentais. Os estados emocionais, ou estados motivacionais afectivos, podem ser negativos (dor, medo, fome, etc.) ou positivos (prazer, alegria, conforto).

 Podem ser acti3ados pela necessidade de sobrevivência ou de promoção da fitness (por exemplo, o medo que está na base da fuga a predadores), ou pelo prazer de levar a cabo acções cujos custos são suficientemente baixos (prazer de brincar ou explorar). Como exemplificam Fraser e Duncan (1998), certos comportamentos podem ser motivados pela ocorrência simultânea de estados emocionais negativos e positivos (por exemplo, comer motivado pela fome e pelo prazer). A compreensão destes processos tem implicações profundas na gestão da ocorrência de sofrimento e na promoção do prazer e bem-estar dos animais em cativeiro.

A averiguação de emoções em animais baseia-se normalmente na análise do comportamento e das alterações fisiológicas. Mas a sua dimensão cognitiva é frequentemente estudada através de mecanismos de aprendizagem, nomeadamente do condicionamento clássico e operante. A forma como os animais aprendem a antecipar ou a evitar estímulos aversivos é muito informativa e está, na verdade, associada à forma como os percepcionam e processam (Portavella, Salas, Vargas & Papini, 2003; Mendl & Paul, 2004; Yue et al., 2004).

No contexto da investigação em bem-estar animal, o estudo da motivação para ter acesso a certos recursos ou para levar a cabo certos comportamentos realiza-se através de paradigmas de condicionamento operante, ou através da análise dos custos que o animal está preparado para pagar em termos de esforço físico ou de privação (Fraser & Matthews, 1997; Dawkins, 1983). 

Broom (1998) reconhece um papel relevante destes estudos (quando apropriadamente concebidos) na indicação dos estados emocionais relacionados com a fome, sede ou desconforto térmico. Por outro lado, Dawkins (2001) chama a atenção para o facto de ser um erro assumir que as escolhas que os animais fazem possam sempre implicar consciência. Contudo, sempre que essas escolhas envolvam a aprendizagem por reforço positivo (estimulador de emoções positivas), é lícito usar argumentos por analogia com humanos acerca dos estados emocionais subjacentes.

O estudo da percepção da dor, cuja dimensão consciente a distingue de nocicepção, tem originado recentemente um interesse particular no contexto de averiguação da capacidade de sofrimento em peixes (Rose, 2002; Sneddon, 2003; Sneddon et al., 2003). Os estudos realizados por Sneddon e colaboradores na truta arco-íris (Sneddon, 2003; Sneddon et al., 2003) demonstraram um sistema nociceptor semelhante ao de outros vertebrados, ou seja, a existência de nociceptores na pele e dos dois tipos de fibras do nervo trigeminal que conduzem a informação nociceptiva ao cérebro. Os mesmos autores identificaram um conjunto de comportamentos em resposta à estimulação nociva, indicadores de processamento cerebral, entre os quais se destacam a alteração do comportamento alimentar, o aumento do ritmo respiratório, o repouso com balanceamento do corpo no substrato, e a fricção das áreas do corpo afectadas nas paredes e substrato do aquário. Sneddon (2003) mostrou o efeito analgésico da morfina à resposta comportamental a estímulos nocivos em trutas. Chandroo et al. (2004) refere vários estudos em teleósteos que comprovam a produção de opiáceos, com funções de mediação da dor, e a existência dos seus receptores específicos. O mesmo autor menciona trabalhos que demonstram a forma como estímulos nocivos, potencialmente causadores de dor, são facilitadores de certas formas de aprendizagem.

O medo é uma emoção que, como as demais, resulta em alterações fisiológicas e comportamentais na sequência da percepção de um estímulo perigoso. Os indicadores de medo que têm sido referenciados para peixes incluem o aumento da taxa respiratória, a produção de feromonas de alarme e reacções comportamentais de aversão, nomeadamente a fuga rápida e o distanciamento (Chandroo et al., 2004; Yue et al., 2004). Usando um paradigma de condicionamento operante e clássico, Yue et al. (2004) demonstraram como trutas arco-íris aprendem, através de uma associação de estímulos, a evitar um evento percepcionado como perigoso, sendo capazes de aprendizagem envolvendo memória de longa duração. O tipo de resposta comportamental exibida (fuga) mostrou ser flexível e adaptativa, pois o seu tempo de latência variou com a exposição ao estímulo, sendo menor quando na presença do evento adverso (estímulo não condicionado) do que relativamente ao estímulo condicionado (que originalmente antecedia e sinalizava a ocorrência do evento adverso). Também Sneddon et al. (in press, citado por Braithwaite & Huntingford, 2004) demonstraram como um estímulo normalmente provocador de comportamentos de aversão causou uma resposta reduzida em trutas arco-íris previamente expostas a um estímulo nocivo (potencialmente causador de dor). Este efeito foi revertido, aumentando a resposta ao medo, mediante a administração de um analgésico (morfina).

Stresse psicogênico

Tal como mencionado, a resposta a estímulos aversivos é um processo integrado que conta não só com a percepção dos animais, mas também com a memória de experiências anteriores, o que confere ao stresse uma dimensão inevitavelmente psicológica (Barton, 1997). Este mesmo aspecto foi demonstrado por Moreira e Volpato (2004), com tilápias do Nilo (Oreochromis niloticus), usando o paradigma de condicionamento clássico. O confinamento provoca uma resposta ao stresse, e estes animais aprenderam a associar uma luz (estímulo condicionado) à ocorrência deste evento. Depois de um período de aprendizagem, os autores mencionados mostraram como os peixes produzem o mesmo tipo de resposta hormonal (aumento dos níveis de cortisol) exclusivamente em resposta à exposição à luz. Moreira, Pulman, e Pottinger (2004) sugerem que existem diferenças comportamentais e cognitivas (memória e aprendizagem) entre duas linhagens de trutas arco-íris seleccionadas pelas suas respostas baixas ou elevadas de cortisol a stressores. Também Schreck et al. (1995) já tinham mostrado, associando a remoção da água de salmão-real (Oncorhynchus tshawytscha) à distribuição de alimento, como o condicionamento positivo, contribuiu para atenuar a resposta fisiológica a stressores subsequentes (transporte).

O contexto social em que os indivíduos vivem pode ser uma fonte de stresse originado pela dinâmica do estabelecimento de hierarquias, territorialidade, acasalamento, entre outros. Neste contexto, o stresse psicológico gerado pode ter três componentes: estados emocionais negativos (como o medo), processos de percepção que implicam o reconhecimento de conspecíficos e a capacidade de antecipação da presença ou de acções agonísticas por parte de conspecíficos (Chandroo et al., 2004). O estado de stresse crónico em que se encontram animais subordinados de várias espécies é com frequência resultado da mera percepção da presença de indivíduos dominantes. Este estado crónico, que provavelmente envolve medo, altera ou mesmo inibe o estado motivacional desses animais para outros comportamentos (Chandroo et al., 2004).

Conclusão

As evidências apresentadas acerca da dimensão psicológica do stresse, dos estados motivacionais afectivos que gera, das motivações comportamentais e das funções cognitivas dos peixes, sugerem fortemente a existência de senciência, donde decorre a legítima aplicação do conceito de bem-estar a este grupo de animais. A existência de senciência confere aos peixes um estatuto moral com implicações éticas na sua protecção. Apesar de a legislação já englobar a protecção de todos os vertebrados, existem ainda inúmeras questões acerca do bem-estar de peixes que importa esclarecer, sendo a formulação de recomendações para a manutenção e tratamento destes animais em cativeiro uma necessidade cada vez mais pertinente.

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 Endereço para correspondência
Leonor Galhardo
Unidade de Investigação em Eco-Etologia, Instituto Superior de Psicologia Aplicada,
Rua Jardim do Tabaco, 34 1149-041 Lisboa, Portugal
E-mail: leonor_galhardo@ispa.pt
Rui Oliveira E-mail: Rui.Oliveira@ispa.pt
Recebido em 1 de agosto de 2005
Revisão recebida em 2 de setembro de 2005
Aceito em 24 de agosto de 2006