sábado

Livre Arbítrio X Animais, por Simone Nardi

O homem é um Deus para os animais, como outrora os Espíritos foram deuses para os homens. Allan Kardec

Diariamente recebemos mensagens da espiritualidade sobre os mais diversos assuntos do nosso cotidiano. Pequenas regras de como agir bem para melhorarmos a nós mesmos e, conseqüentemente, o mundo ao nosso redor.

São mensagens de como nos controlarmos diante da raiva, da tristeza e da perda de um ente querido. De como agirmos diante de uma situação de penúria e lamento. E essas orientações espirituais circulam ainda mais em determinadas datas comemorativas, nos mostrando como deveríamos ou não agir, já que temos o direito do Livre Arbítrio para nos guiar a consciência.

No Natal orientam-nos a respeitar o Mestre Jesus, sempre esquecido nas opulentas festas familiares. Na Páscoa nos convidam a relembrar com carinho do Mestre crucificado. No Carnaval nos convidam a nos afastarmos da festa e tomar cuidado com os excessos ao qual ele pode levar .

A grande maioria dos espíritas segue todas as orientações da espiritualidade, e há um repasse gigantesco de textos sobre tais assuntos pelas redes de Internet, o que não acontece, infelizmente, com outros tipos de mensagens que às vezes sequer são lidas e, freqüentemente deletadas, tanto dos e-mails, quanto da mente das pessoas.

Essas mensagens são aquelas que ficam a beira do caminho, ignoradas pela mesma grande maioria que repassou as mensagens sobre o Natal, o Carnaval e a Páscoa, às vezes até são lidas, mas não são seguidas com a desculpa do "Livre Arbítrio". Só nos esquecemos que nosso mau uso do "Livre Arbítrio" pode acabar nos prejudicando e ainda pior, prejudicando o mundo que nos cerca.

Se conseguimos ler uma mensagem de Emmanuel sobre os males que o Carnaval pode trazer a nossa evolução, não ignorá-la e ainda por cima, disseminá-la entre amigos, por que conseguimos ignorar esse mesmo Emmanuel, quando ele se refere aos malefícios da carne, alegando que nossa evolução está atrasada devido aos nossos, nada misericordiosos, hábitos alimentares?

Em sua obra "O Consolador", Emmanuel na questão 129, questionado se é um erro o homem se alimentar dos animais, ele responde:

"A ingestão das vísceras dos animais é um erro de enormes conseqüências, do qual derivaram numerosos vícios da nutrição humana. É de lastimar semelhante situação, mesmo porque, se o estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos de origem vegetal, sem a necessidade absoluta dos matadouros e frigoríficos." 

 
Livre Arbítrio?
 
Sim, podemos sempre nos valer dele e acusá-lo por nossas necessidades físicas particulares, só não podemos esquecer que usando-o a nosso favor, estamos contribuindo diretamente com a matança indiscriminada de vidas que foram , como nós, criadas por Deus para evoluírem sempre, e somos responsáveis por impedir esse progresso, retardando-o de forma brutal. Enquanto dizemos a nós mesmos que é preferível comermos nosso bifinho, ao invés de falarmos mal de alguém ou de nos atormentarmos pela falta dele, deveríamos nos lembrar do que acontece dentro dos matadouros e assim pesar se a falta de nosso bife, "nosso tormento", vale mesmo aquela vida que sofreu e perdeu momentos preciosos de evolução.

Se conseguimos ler uma mensagem de André Luiz sobre o Natal, e nos compadecermos dos desabrigados, dos órfãos e dos famintos, como conseguimos ignorá-lo quando ele nos narra em detalhes, todo o sofrimento pelos quais os animais passam diante da morte brutal que os levará até nossas mesas natalinas?

"A pretexto de buscar recursos protéicos, exterminamos frangos e carneiros, leitões e cabritos incontáveis. Sugamos os tecidos musculares, roemos os ossos. Não contentes em matar os pobres seres que nos pedem roteiros de progresso e valores educativos, para melhor atenderem a Obra do Pai, dilatamos os requintes da exploração milenária e infligimos a muitos deles determinadas moléstias para que nos sirvam melhor ao paladar. O suíno comum é enclausurado em regime de ceva, para adquirir banhas doentias e abundantes. Gansos são postos nas engordadeiras para que hipertrofiem o fígado, de modo a obtermos pastas substanciosas destinadas a quitutes famosos. Em nada nos dói o quadro comovente das vacas-mãe levadas ao matadouro, para que nossas panelas transpirem agradavelmente, esquecidos de que tempos virão para a Humanidade terrestre em que o estábulo, como o lar, será também sagrado e que em todos os setores da Criação Deus, nosso Pai, colocou os superiores e os inferiores para o trabalho de evolução, através da colaboração e do amor, da administração e da obediência. (Cap. 4págs. 41 e 42- Livro Missionários Da Luz)
 

Livre Arbítrio?
Temos que considerar, embora alguns discordem, que nos é bem mais fácil nos valermos da consciência moral quando nos propomos a realizar ações ou nos afastar de algo que não gostamos: Carnaval, futebol, reveillon. Sempre fica mais fácil nos afastarmos daquilo que não apreciamos. Já, quando gostamos de determinadas coisas, sempre nos valemos de nosso "Livre Arbítrio", afinal, nos banquetearmos dos animais é algo que está encravado em nossas raízes, só nos esquecemos que esses mesmos animais, como Centelhas Divinas, também seguem conosco na trilha da evolução.

Dezenas de vozes se erguem para amenizar o tema quando ele trata da alimentação animal, alegando que podemos comer carne porque ainda necessitamos, porque alguns encaram como balelas as palavras de Irmão X sobre os cemitérios na barriga, porque o próprio Chico comia carne, porque ainda somos carne.E encaram com tremenda seriedade outras mensagens desse mesmo espírito sobre Natal, sobre tristeza, sobre dor. Quantas vezes já ouvi de grandes palestrantes a frase: "Comer carne não faz mal nenhum".
 
Não faz mal nenhum a nós ou aos animais?
 
Somos egoístas a esse ponto de não nos importamos com eles, só nos importando com as "Nossas" fraquezas e com aquilo que só a nós, poderá ou não fazer mal?Será isso que o Espiritismo nos ensina?

Às vezes me questiono por quanto tempo ainda, nós usaremos da desculpa do "Livre Arbítrio" que Deus nos concedeu, para prejudicarmos estes espíritos, só porque estão num grau bem mais abaixo daquele que já atingimos.

Claro que devemos respeitar o tempo de despertar de cada um e seu Livre Arbítrio, mas enquanto dormimos outros sofrem e, se somos capazes de estender as mãos a um espírito sofredor, porque não somos capazes de fazer isso a todos os que sofrem?

Tudo o que vive é teu próximo, afirmou Gandhi, e Jesus já havia dito antes, Amai ao próximo como a ti mesmo; próximo em espírito, não importa se o consideramos superior ou inferior, somos capazes de respeitar os anjos por serem superiores, no entanto não conseguimos respeitar aqueles que julgamos inferiores.

Acredito que , como espíritas, temos que os esforçar mais para ouvirmos e compreendermos as mensagens dos espíritos, e usar de sua sabedoria não apenas no Carnaval ou no Natal, mas diariamente, a começar pela violência contida em nossas mesas. Não existem vampiros apenas nos bailes de Carnaval, existem vampiros também dentro dos frigoríficos. Não existe tristeza e dor somente no Natal, não somente os órfãos e desabrigados padecem, mas existe dor e sofrimento diariamente dentro dos abatedouros.

Se quisermos nos melhorar e melhorar o Mundo, devemos aprender a ouvir com o coração, não apenas aquelas mensagens que nos são mais "fáceis" de serem seguidas, mas aquelas mais difíceis, aquelas em que temos que quebrar verdadeiros muros culturais para conseguirmos realmente, fazer o bem.

Será que somos capazes de sermos realmente abnegados, ou fazemos apenas o necessário para nos sentirmos bem?


Simone De Nardi , nascida em São Paulo. É aux. de enfermagem do trabalho, escreve livros, poemas, contos e pequenas peças espíritas nas horas vagas. Junto com alguns amigos formou um grupo de voluntários que sai nas noites de domingo para distribuir amor, agasalhos e alimentos aos moradores de rua. Mantém um grupo de discussão e um blog sobre a Doutrina , bem como um blog voltado a consciência e preservação do meio ambiente e amor aos animais.

Fonte: Feal

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